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Jardins Suspensos

Jardins Suspensos

Cabeceira: As Duas Irmãs - Agatha Christie :)

 Olá!

 

 Uma das coisas que mais me dá prazer, é ler. Sou daquelas que viaja quando está a ler e infelizmente, também sou das que tem de ter uma situação circundante que permita que eu me embrenhe realmente, senão não consigo ler. 

 

 Em Janeiro só li um livro (shame on me) mas foi ainda assim, um boa escolha.

 

 Acho que já disse por aqui que Agatha Christie é a minha autora favorita e o género em que ela aplicou o seu engenho, o policial, é de facto o meu género preferido. No entanto, admito que ler mais géneros é uma vontade em construção e nesse sentido, ler um romance da minha autora predilecta, escrito com o pseudónimo Mary Westmacott, é algo a que não posso dizer que não.

 

 

 Sinopse: "Laura Franklin fica muito afectada pelo nascimento da irmã. Como seria de esperar, a encantadora bebé Shirley concentra as atenções da família. Os ciúmes de Laura são tão intensos que ela chega a desejar a morte de Shirley. Mas estes sentimentos negativos mudam drasticamente certa noite, quando, após um incêndio, jura protegê-la com toda a sua força e amor. Anos depois, quando Shirley começa a ansiar por liberdade e aventura, Laura terá de questionar os limites de uma relação que se tornou desigual. Terá o fardo do seu amor pela irmã tido um efeito dramático e irreversível sobre as suas vidas?"



 Sabem aquele sentir selvagem, quando se é pequeno e outra criança rouba as atenções todas dos nossos pais e não isso é justo? É por aí que este livro começa. Pessoalmente, acho de uma atrocidade tremenda os pais terem favoritos, seja por razões de género, beleza ou intelecto, é daquele tipo de injustiça tremenda que modifica um ser desde a alma, numa altura que deveria ser das mais felizes da sua vida.

 Os pais de Laura tinham um favorito, Charles. E depois tinham Laura. Quando Charles morre, Laura acredita, com aquela crença que só as crianças encerram em si, que tudo será diferente e que o desprezo a que a vetaram durante anos, desaparecerá de um momento para o outro. Mas isso não acontece, pois Shirley nasce e quando olha para ela no seu baptizado, a mãe de Laura esquece a dor da perda do seu amado filho varão e enche-se de um amor que deveria ser partilhado também pela outra filha.

 Acho que é importante dizer que todos os sentimentos que aquela pequena criança sente, os bons, os fantasiosos e mesmo os maus, são tão bem retratados pela autora, que a minha vontade foi segurar Laura pelos braços e fazê-la sentir-se amada como ninguém antes tinha feito. A alheação de que sofrem os seus pais, que não vêm o sofrimento da filha aumentar, pois podem sempre contar com a boa menina que é, é algo que ainda podemos ver hoje em dia e cada vez mais, é intemporal e é uma merd@.

 A situação chega ao ponto de Laura rezar para que a bebé morra. Aqui eu quero dizer, que acredito que nenhuma criança nasce má e que o ambiente em que é criada e a educação que tem, são fundamentais para que ela seja, quando crescer, um ser decente, seja por ter bons exemplos, seja por querer fugir dos maus. Educação não é dinheiro, é atenção, é interesse, é incentivo, é motivação, é carinho e disciplina, tudo em doses equilibradas.

 No entanto, e como diz ali em cima na sinopse, quando um incêndio deflagra pela casa, Laura é acomentida de uma urgência de protecção, substituindo um instinto selvagem por outro: o maternal. Shirley torna-se no centro da sua vida e é para ela que Laura vive.

 Quando os anos passam e Shirley se apaixona e deseja casar com Henry, Laura tenta perceber se deve ou não detê-la e avaliar se aquele amor que tem à irmã foi algo positivo ou negativo para ela. Tenta aconselhar-se com Mr. Baldock, aquele que foi o único que notou desde cedo o que lhe ia por dentro, aquando menina, mas deixa que a irmã siga a sua vida como quer. E a vida que Shirley escolhe, não é a melhor de todas.

 Por entre páginas, Laura fica lá atrás e somos levados para mão a descobrir o que de bom e mau tem a escolha da jovem Shirley. Henry não é dos melhores maridos a vários níveis e três anos depois, quando se torna inválido, não poupa a mulher das suas fúrias, embora ela nunca desista de estar com ele. Shirley é daquelas mulheres que olha mais fundo dentro de um homem e passa por cima de traições e palavras amargas, quando ele dela precisa. É devota e essa devoção parte do amor que ainda sente. Atrevo-me a dizer que esta parte do livro, será das menos plausíveis de acontecer hoje em dia, pela facilidade com que nos descartamos uns dos outros à mínima desculpa esfarrapada. No entanto, é fácil entendê-la, se ela se for, quem cuidará dele?, quem aturará os seus ataques de fúria?, quem o lembrará que afinal já tomou o remédio? 

 Num rasgo de lucidez, Henry tem uma última acção bonita para com a mulher, agradece-lhe e pede desculpas. A esperança que tudo corra melhor e a redobrada força de suportar tudo o que de mau possa vir depois, apossa-se de Shirley, enquanto sai de casa pela primeira vez em muito tempo e deixa Henry ao cuidado a irmã. 

 Sabem o tal remédio? Shirley ainda grita a Laura que Henry já o tomou, mas aparentemente Laura não ouviu e quando o enfermo o pede, esquecido de já o ter tomado, a cunhada dá-lho, provocando a sua morte.

 Depois disto, Shirley nunca mais é a mesma e uma nuvem negra paira sobre Laura. 

 O livro apresenta-nos uma nova personagem neste ponto, um daqueles pregadores americanos que arrastam multidões e que tráz Deus à equação em conjunto com um pouco de fé. Ele servirá o propósito de estudar e tentar de algum modo ajudar Shirley, na ilha para onde se mudou com um marido a quem nunca amará como a Henry mas que a adora de tal modo, que é cego para ver o que realmente se passa com ela. O que se passa é que a dor que a corrói por dentro é maior que a vontade de viver e a bebida é o único escape que a faz viajar do seu corpo e ir além do mar que aprecia. 

 Quando ela morre e Llewellyn se desloca a Londres para dar os seus pertences a Laura, encontra uma mulher que sofre com o peso de um amor que a fez desejar uma bebé morta, que a fez meter-se por entre uma divisão em chamas para a salvar, que dedicou os anos seguintes àquele ser, que a deixou seguir o seu caminho mesmo não querendo e que deu uma dose letal a alguém que a fez sofrer. Laura dedicou a sua vida à irmã e quando se viu sem esse propósito a que se entregar, entregou-se ao que pode, de modo a cumprir a penitência de um crime que apenas ela sabia ter cometido. Ela e Baldy (Mr. Baldock), que sempre a conheceu. 

 Llewellyn teve visões na sua busca pela fé e a única que faltava cumpri-se, era Laura, a mulher que ele sabia no seu íntimo que seria para ele. O livro acaba com um novo recomeço para ela, com aquilo que desejava na primeira página: amor.

 

 A parte das visões é talvez o meu único turn off do livro, acho que é um pouco menos passível de passar por verdade do que tudo o mais que está escrito. Sim sim, o marido que é mau e adúltero tem um acidente e torna-se inválido e a cunhada mata-o para livrar a irmã do sofrimento e aprisionamento que é aquele casamento. Mas Shirley não queria ser liberta, queria Henry, com tudo o que isso trazia de bom e de mau, de amor e de rancor. Há clichés, é certo mas estão escritos pela mão de alguém que soube escrever sobre e descrever a natureza humana de forma a que a maior parte do que escreveu, nos tempos idos de 1956 (ano original de publicação deste livro), possa ser adapatado facilmente a 2013. E isso é que faz dela a maravilhosa escritora que foi e ainda é.


 Nota mental: ler romances é bom mas leva-me a um estado de pieguiçe e choradeira que não posso nem sei evitar. Chorei ao ler este livro e chorei enquanto dele aqui escrevi. Aconselho a leitura, embora eu tenha resumido e desbroncado o livro todo!


 Beijoo :)

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