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Jardins Suspensos

Jardins Suspensos

Para que quer alguém os óculos graduados de outrem?

Entrei no balneário, tirei os óculos e pousei-os no banco. Pousei o saco térmico onde guardo a refeição, abri os cacifos. Tirei a mala, tirei o saco, deixei cair as revistas, praguejei. Troquei de camisa, arrumei as coisas que ia levar comigo nos sacos para que o peso ficasse equilibrado, fechei os cacifos, pus a mala ao ombro, peguei nos sacos e fui-me embora.

 

Passados 15m e já dentro de um comboio em movimento depois da uma da manhã, fui buscar os óculos para ler um pouco na viagem. Não os encontrei. Tinha-me esquecido deles no banco e ficaram camuflados pelo volume dos sacos e eu não dei pelo lapso de lá os deixar. Stressei imediatamente. O homem acalmou-me ou tentou, afinal, quem é que quer ficar com os óculos graduados de outrem?! Quando fui trabalhar no dia seguinte, foi-me dito que viram os meus óculos onde os tinha deixado mas não lhes mexeram, deixaram-nos lá. Entre esse momento e a a minha chegada, os óculos ganharam pernas e fugiram, provavelmente do chulé e do suor de alguém. Mentira, os óculos não ganham pernas. Tanto não ganham que não foram ter à central de segurança nem ao balcão de apoio ao cliente. 

 

Precisei de uma hora inteira para parar de chorar e trabalhei cheia de dores, primeiro nos olhos e depois na cabeça, porque de facto eu preciso de óculos para ler, eu preciso de óculos para ver letras e números pequenos e meio sumidos, eu preciso de óculos para que não pareça que o mundo está mais brilhante do que eu consigo suportar. Estar ao computador só é possível porque havia aqui um par de óculos de leitura que me pseudo safam mas que têm a armação partida. 

 

Em dois anos de uso de óculos, esta foi a primeira e, aparentemente, última vez que eu os deixei algures. Afinal, há quem queira os óculos graduados de outra pessoa. E embora eu não esteja a ver bem neste momento, eu vou exergar perfeitamente se os vir na cara de alguém e essa pessoa não precisará de óculos mas sim de uns olhos novos. 

 

Achado não é roubado? Dentro do local de trabalho e sabendo facilmente a quem pertence o que se achou, por acaso até é.