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Jardins Suspensos

Jardins Suspensos

Reclamação de Direito

Ninguém tem o direito de te chamar retardada(o), de te dizer que nada do que fazes está bem, que o pouco que fazes está errado, não presta, está sempre invariavelmente mal feito. Não, ninguém tem o direito de te dizer que tu não prestas, que o teu cérebro não funciona e que da tua boca só sai merda. Ninguém tem o direito de te fazer chorar e depois gritar contigo por chorares, por sempre te fazeres de vítima quando o que estás a fazer é ter uma reacção psicológica incontrolável face à agressão de que estás a ser alvo. Sim, isso faz de ti uma vítima mas não tem a ver com uma reclamação de vitimização para chamares a ti as atenções. Normalmente, as verdadeiras vítimas são-no de forma privada e os seus agressores aparentam normalidade, funcionalidade, boa índole. Sociopatas e prendados portanto.

 

Ninguém tem o direito de te trair, de te enganar, de te mentir e de magoar os teus sentimentos, uma e outra vez. De te humilhar, de te encher o espaço até que mal consigas respirar mas de forma a que fiques largada a um canto como lixo usado e dispensado. Não é direito de ninguém fazer pouco de ti quando estás mais vulnerável, exigir auxílio quando nem sequer te dão a mão quando dela precisas. Ameaçar que te metem fora de casa, porque são reis e senhores da moradia, tu és um mero objecto da sua bondade e benevolência.

 

Dizer-te que todos os males são originados em ti, porque calas, porque falas, porque fazes, porque não fazes, porque ris, porque choras. Não é direito de ninguém, nenhum homem, nenhuma mulher, nenhum pai e nenhuma mãe, nenhum marido e nenhuma namorada.

 

Principalmente, não é um direito teu, fazê-lo a ti mesma. Dilacerares-te a ti mesma com afrontas, insultos, arranhadelas, socos e por vezes pior, não, não tens o direito de o fazer a ti própria. Permitires-te viver com um monstro por não conseguires ver uma saída e culpares-te mais a ti do que a ele não é algo que devas assumir como normal, como o teu destino, como algo aceitável e suportável. 

 

Talvez nunca te tenham explicado mesmo que a vida é algo precioso, que não tens botão de reset e que quando se acabar, não dá para repetir e fazer diferente. O tempo é agora, o hoje é tudo o que tens adquirido e se esse amanhã em que sonhas ser feliz não está prometido, como podes comprometer a hipótese de ser feliz mesmo sozinha, ao te permitires ser infeliz com alguém a quem deste o direito de o fazer?

Não é fácil escapar de uma vida de abusos e do controlo de alguém a quem deste poder sobre ti. Implica uma enorme vontade de viver, de ser, de reconstrução interior. Tens de o querer, de o querer com todas as tuas entranhas, com a massa de que és feita. E tens de dar o primeiro passo, mesmo que seja pequeno, mesmo que acabe num tropeção. Para que reclames e detenhas todos os direitos sobre ti outra vez.

 

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