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Jardins Suspensos

Jardins Suspensos

[Sentires] Exorcizar Demónios da Mente

 Dizemos sempre que se deve agir fora das nossas zonas de conforto, que devemos desafiar as rotinas e inovar, afinal, há um mundo maravilhoso por trás daquela porta que nunca ousámos abrir e lá também acontecem coisas boas, desse lado também encontraremos felicidade e quem sabe, uma versão melhor de nós mesmos. Eu acredito nisto. Eu acredito que sair da estrada rotineira pode ser fantástico, que fazer diferente do que já fazemos nos pode mostrar o caminho que é nosso. Mas com isso vem exposição, vulnerabilidade. E por vezes, somos tão adversos às mudanças e novidades de lugares e pessoas, que mesmo que tenhamos idealizado toda uma experiência de sucesso na nossa cabeça, há algo que falha quando tentamos concretizar.

 

 Nunca gostei de mudanças, sempre me deram dores de estômago daqui até ao céu. E sou socialmente estranha, essa é a verdade. Adoro estar aqui, a escrever sobre e para pessoas, numa vontade que aquilo que eu escrevo lhes seja útil, que lhes toque, que lhes ensine algo, porque é a escrever que eu me expresso melhor. Pessoalmente, por vezes as emoções tomam conta do meu discurso: choro compulsivamente e gaguejo, sem conseguir transmitir o que quero. Sempre fui assim, desde que me lembro. Sempre me senti mais segura no meu canto, no meu casulo. 

 Por vezes faço um esforço, o ano passado fui ao Bloggers Camp mesmo por isso e não foi fácil para mim mas consegui sair de casa e ir. Mas conversar à vontade com pessoas e conviver não foi assim tão fácil. Lembro-me de ter tido um momento muito groupie com a Helena mas também me lembro que com a quantidade de informação que ela me dava e eu dizia que tinha visto nalgum feed dela ou no seu blog, eu poderia parecer algo stalker. Eu vou vendo as coisas e pessoas através do meu computador e retenho algumas delas na memória, o que me faz parecer ainda mais estranha que aquilo que já sou. E isso é um handicap, este teres noção de não comunicares assim tão bem e o refreio que metes para não parecer obcecada quando na realidade nem és, apenas tens uma mente diferente.

 

 Eu hoje ia sair de casa. Ia a um evento em Lisboa que me iria ocupar a manhã e me ia retirar da minha zona de conforto. E eu queria ir. Preparei a roupa, arrumei tudo bonitinho, idealizei os acessórios, o batom que ia usar. Na minha cabeça eu vi-me a sair de casa, a apanhar o comboio e a entrar no hotel, a cumprimentar a anfitriã. Eu convenci-me que, dado que ir à Expocosmética desta vez tinha ficado sem efeito, eu precisava na mesma de sair de casa sem ser para ir ao super ou trabalhar. Mas quando chegou a hora, o meu corpo não respondeu ao meu cérebro e levou-o a ter um episódio irreal.

 

 Tive um ataque de ansiedade. Aos nervos que sempre antecedem um dia mais madrugador, que eu funciono bem é de noite, juntou-se um mal estar no estômago, uma bexiga minúscula, um formigueiro nas mãos. As minhas mãos nunca suaram nestas ocasiões, é sempre à base de não saber o que fazer com elas, como se não pertencessem ao resto do corpo. Suar é no couro cabeludo. Estes sintomas físicos atacam o meu cérebro e aí vem um medo irracional de sair para o mundo, como se as escadas se fossem desintegrar ao meu passar, como se o comboio pudesse descarrilar, como se eu não fosse passível de pertencer ao ambiente a que me ia expor. E eu fecho-me, desligo, não consigo andar. Eu não consegui sair de casa. 

 

 E depois vem a culpa e a vergonha. Ondas avassaladoras de culpa em deixares que isto aconteça e de vergonha de teres faltado à tua palavra. Quando eu falto ao trabalho por exemplo, mesmo sendo por estar doente, eu sinto-me culpada, não é algo que faça de ânimo leve, porque considero ser meu dever ir trabalhar. E a vergonha é uma bola de neve porque em um primeiro acto te faz retrair mas a seguir também te leva a esconderes-te nela, aumentando a cada momento a dificuldade de espreitares cá para fora. 

 

 Já há muito tempo que não tinha um ataque de ansiedade. De forma geral tenho andado mais em baixo e isso deve ter facilitado. Pequenas coisas juntam-se e levam-te com elas.

 Mas estou aqui, meia dúzia de horas depois, a espetar a minha cabeça de fora desta culpa e vergonha, que eu sei que não são reais ou racionais, embora não as sinta menores por causa disso. Estou aqui, a respirar fundo e a fazer o que posso para não chorar, pelo menos muito. Estou aqui, a expor-me (que é tão fora da minha zona de conforto!) e a enfrentar os meus demónios, tentando exorcizá-los enquanto lamento todas as experiências que não cheguei a viver. Aqui, a dizer a mim e a ti, que eu sei que não sou única neste sentir, que para a próxima havemos de ser bem sucedidas, vai correr melhor.

 

 E se eu consigo fazê-lo, tu também poderás. Pelo menos tentamos.

 

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[Sentires] #Viveatuabeleza

 Se olhares em redor, vai-te parecer que o #ViveatuaBeleza (conhece o projecto/movimento AQUI) foi elencado por mulheres bonitas e com massas corporais tidas como "normais" ou mais dentro do que o conceito de normal é encarado. No entanto, vais perceber também, ao ler as suas histórias, que essas mulheres já se depararam com factos acerca dos seus corpos com os quais tiveram de aprender a lidar. Isso tem de te dizer a ti, que não estás feliz no corpo em que vives, que todas nós somos passíveis de dias e fases menos boas para connosco mesmas, que todas temos as nossas inseguranças e que esses sentimentos não são exclusivamente teus.

 

 Às vezes dá vontade de gritar, eu sei, sentes um misto de fúria e frustração imensa dentro de ti e não tens em quem te apoiar, com quem te relacionar, parece que não há quem te represente. E sentes que os teus queixumes são vãos, que os teus defeitos são maiores do que realmente são. Então respira fundo.

 

 Quando o meu corpo mudou da primeira vez, foi o reflexo de uma queda psicológica. Ajustei-me como pude, desenrasquei-me e esgravatei para fortalecer-me mas fechei-me. Em mim e em casa. E depois, quando saí à rua a primeira vez, eu tropecei algumas vezes: tinha esquecido como se andava. 

 Ao longo do tempo o meu corpo andou quase sempre na mesma, umas vezes perdia peso e noutras ganhava, não fazia nada para isso, eram as turbulências da vida, tal como acontece com qualquer mortal. 

 Quando me escangalhei pelo chão e fiz do meu tornozelo, pó, passei de alguém que se mexia bem e depressa para alguém que se andar de uma ponta à outra do Colombo, quase não consegue andar no dia seguinte. Claro que o meu peso aumentou, era natural com a mudança bruta de hábitos e de funções no local de trabalho.

 

 Compreende, estou a explicar-te como chegámos aqui, não sou quem era antes da minha primeira mudança corporal e não quero voltar a ser aquela pessoa, cresci e avancei, não choro os quilos ganhos.

 Ok, naqueles dias em que experimento roupa e nada do que eu gosto, me serve, eu tenho quebras e choramingo um bocado, é frustrante ver que as roupas são idealizadas para certo tipo de corpo e que para o meu, muitas vezes não existe algo que combine comigo e a um preço justo.

 

 Mas este é o corpo que eu tenho, é o corpo que gerou o meu filho, o corpo que se levanta todos os dias para ir trabalhar, o corpo marcado pela celulite e pelas estrias, de uma cor que não é branca nem castanha, uma mistura de raça. Deu-me trabalho amá-lo e acarinhá-lo. Não é fácil, principalmente nesta altura em que anda tudo tão centrado em comer frutos secos entre corridas matinais de 5km, porque as pessoas olham para mim e julgam-me, apenas pelo tamanho do meu corpo, acreditam-me preguiçosa e desleixada. Sabes o quão isso é desumano? Eu aqui a acreditar e a pregar que as pessoas devem viver as vidas que as fazem felizes desde que não prejudiquem ninguém e tenho de levar com olhares de esguelha se estou a comer um hambúrguer ou pizza, se bebo a porra de uma cola!

 Deu-me um trabalho descomunal aprender, primeiro a aceitar o meu corpo, depois a sentir-me bem nele e agora, a amá-lo. Foi um tarefa de peso (eu sei) passar a olhar-me ao espelho nua e não ficar ressentida, comigo ou com a vida. Sei onde estão os meus pontos fortes e sei o que me fica bem e não. Não me sinto espectacular todos os dias mas está tudo bem, também tenho de aceitar que os dias menos bons nos fazem apreciar os dias mesmo bons e a vida é uma mescla de tudo isso.

 

 Acho que deves ligar a luz, tirar a roupa e ver-te ao espelho, submeteres-te à única opinião que conta, a tua. E, com honestidade para contigo, e principalmente com bondade para contigo, encontrares a beleza que tens. Porque tens. Sejas magra ou gorda, amarela ou castanha, alta ou baixa, quando perceberes que és bonita na tua forma mais crua, vais ganhar um poder sobre ti mesma que é algo muito mais portentoso que o que qualquer trolha que te assobie na rua. 

 E depois vais aprender/continuar a usar a maquilhagem, os perfumes, os cuidados de rosto e de corpo, as roupas que gostas e os acessórios bonitos, não para fazer os outros descentrarem-se de ti mas para complementar o quão bem te sentes a ser tu mesma. E não, não vai ser perfeito todos os dias mas vai valer a pena o esforço.

 

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